Homilia do Cardeal Angelo Amato na beatificação do Padre Luís Caburlotto


1. O pai Angelo, gondoleiro, e a mãe Elena, foram os primeiros educadores do pequeno Luís Caburlotto, [1] nascido em Veneza, no dia 07 de junho de 1817, em uma família agraciada por doze filhos. Sentindo-se chamado para o estado sacerdotal, o jovem frequentou o seminário diocesano. Foi ordenado sacerdote no dia 24 de setembro de 1842 pelo patriarca Jacopo Monico. Tornou-se pároco aos 33 anos, e logo deu origem a uma Escola de Caridade para meninas pobres e abandonados. Como apoio para esta instituição fundou a Congregação das Filhas de São José. Em 1869, lhe foi confiada também a direção do Manin, um instituto beneficente de maior prestígio da cidade, que tinha o objetivo da formação cristã e a profissionalização dos jovens. Como sacerdote e pároco colocou toda a sua energia para o bem da paróquia, das irmãs, dos jovens, em uma atividade apostólica de grande impacto educativo. Morreu aos 80 anos, em 1897, em conceito de santidade. Padre Luís Caburlotto é o segundo pároco veneziano a ser beatificado, após o Beato João Olini, que foi pároco no longínquo 1200 em San Giovanni Decollato.

2. Na Carta Apostólica Papa Francisco chama o Beato Luís Caburlotto, sacerdote e fundador, de "educador eminente dos jovens, apóstolo incansável da caridade evangélica e mestre fiel da doutrina cristã". São todas qualificações louváveis, que têm raízes em sua santidade de pároco dinâmico, cheio de caridade pastoral e sabedoria educacional, convicto como era de que para o restabelecimento de uma sociedade era necessário um forte empenho no campo da educação.

Na escola da Palavra de Deus, portanto, o Beato - como diz São Paulo na primeira leitura da liturgia de hoje – foi revestido "de sentimentos de ternura, bondade, humildade, mansidão, magnanimidade" (Col 3,12 ), glorificando a Deus em palavras e obras e edificando o próximo com a sua caridade pastoral.

Em uma recente biografia do Beato, as Irmãs sintetizaram sua vida exemplar como estas palavras: "Como sacerdote viveu a obediência a Deus através das mediações humanas, como caminho seguro na estrada da santidade. Como fundador encarnou a escuta, a humildade e a caridade, luzes que guiam e orientam, iluminam e revelam a vontade de Deus. Como educador levou muitos para o caminho da responsabilidade pessoal e da busca apaixonada da salvação das almas ".

3. Aproximemos agora mais de perto da figura do Padre Luís Caburlotto através dos testemunhos daqueles que o conheceram e que enfatizaram sobretudo o espírito de fé. Em todas as circunstâncias, ele tinha o hábito de julgar situações, problemas e pessoas à luz da vontade de Deus. A fé lhe dava conforto, força e paz nas incompreensões, nas dificuldades, nas angústias do espírito. E assim ele formava suas Filhas espirituais, às quais ele deixou uma coleção de valiosas e práticas orientações, onde emergem a sua alma doce, humilde, paciente e cheia de fé: "Filhas, muito ganhareis dizendo em cada acontecimento: "Vontade de Deus, Paraíso meu"; "é necessário ter sempre Deus no coração, boas ideias na mente e respeito humano sob os pés"; "Doçura, doçura, doçura. Com a doçura se fazem os santos"; "Armame-mo-nos de santa paciência e pensemos que devemos combater com tantas cabeças, caráter e tentações, diferentes umas das outras." [3] Para as superioras deixa um alerta, fruto da plurissecular sabedoria cristã: "As superioras devem ver tudo, corrigir pouco e castigar pouquíssimo" [4] E ainda: "Lembrem-se de não temer jamais de serem muito indulgentes, porque é melhor exceder nisso, que tratar com dureza. Então, quando estarão no tribunal de Deus, se por acaso ele tivesse que vos reprovar do excesso de indulgência, vocês podem responder: "Eu aprendi com você, ó bom Jesus" [5]

4. A esperança foi a virtude que o acompanhou no fundar e no guiar as suas obras educativas em favor dos mais necessitados. Na pobreza de meios econômicos, nas incompreensões de todos os tipos, na promoção de seu objetivo formativo ele não desanimava, mas prosseguia com confiança, apoiado pela certeza da presença e ajuda da Divina Providência e da colaboração de pessoas magnânimas. Por isso, ele mesmo estendia a mão para pedir ajuda. Um dia lhe foi sugerido para reduzir a comida às meninas. Mas ele se recusou, respondendo decididamente: "Nunca minhas órfãs terão que sofrer: Se vocês quiserem aumentem o seu número e diminuam as contribuições, eu procurarei outros auxílios para continuar o meu trabalho" [6] No processo de beatificação, uma testemunha, Eugenio Canova, diz: "Quando o governo queria tomar as chaves de Mons. Caburlotto para destruir os orfanatos masculinos e femininos, monsenhor resolutamente respondeu:. "Eu te darei as chaves quando não haverá mais nenhum órfão e nenhuma órfã na cidade de Veneza", ​​e continuou seu trabalho com zelo incansável "[7] Ele foi chamado o homem de providência, porque era um sacerdote de profunda fé e esperança viva.

5. "Como o Pai me amou, também eu vos amei" (Jo 15,9). Estas palavras de Jesus proclamada no Evangelho de hoje, se adaptam bem ao nosso Beato, no qual estava muito vivo o amor de Deus e dos próximos mais necessitados. A caridade era a única justificativa de suas atividades sacerdotais e apostólicas. Para suas filhas espirituais, muitas vezes ele recomendou: “a medida do amor é um amor sem medida”. "Tenha caridade para com Deus, amando-o sem limites", foi um dos conselhos que mais repetiu. [8]

O amor de Deus se expressava no amor ao próximo. Nas memórias da Irmã Gertrude Giuliani lê este episódio: "Para um pedreiro, que parecia não querer se aproximar para fazer a Páscoa [o Beato] perguntou: "Meu filho, por que não cumpre o preceito pascal? Por que não vai receber Jesus? " Respondeu o pedreiro: "Monsenhor, eu o faria de bom grado, mas estou sem sapatos e não tenho meios para compra-los". Então, o santo ministro de Deus, tirando os sapatos quase novos, os entregou ao pobre homem, e calçou um par de botinas velhas que por algum tempo guardava debaixo da cama, porque já não eram mais utilizáveis. "[9]

Com a sua caridade generosa providenciava as necessidades das irmãs. Se eles estavam doentes as visitava com premura, mandava chamar um médico e procurava todos os remédios necessários. [10] A mesma preocupação mostrou para com as pequenas necessitadas, para as quais tinha atenções paternas. Pedia ajuda aos benfeitores e escreveu uma vez também para Viena, à Imperatriz, comovendo-a com a descrição da miséria das meninas e recebeu a ajuda de que precisava. Ele era generoso na esmola e muitas vezes àqueles que o repreendiam pela demasiada prodigalidade respondia, em dialeto veneziano: "Para mim, dinheiro e prego são a mesma coisa". [11] Para ele, a caridade nunca era excessiva, mas sempre faltante.

6. O que diz hoje o Beato as Filhas de São José, presentes não só na Itália, mas também no Brasil, Filipinas e Quênia? Podem ser três mensagens.

Antes de tudo, ele convida-as a santificar-se. A consagração religiosa e a missão apostólica partem de santidade e levam à santidade. Sem santidade o apostolado e o entusiasmo murcham. Com a santidade a caridade se expande na alegria e na fraternidade e torna leve as dificuldades e os sofrimentos inevitáveis da vida diária.

Um segundo convite diz respeito ao compromisso de servir Jesus através da ajuda às pessoas necessitadas, grandes e pequenas, ricas e pobres, fracas e fervorosos na fé. Isto implica um grande espírito de paciência, de mortificação de cruz. Assim diz o nosso Bem-aventurado: "A árvore da cruz é a verdadeira árvore da paz. Sua raiz é a humildade, o tronco é a pureza, os ramos são a caridade. Plantai-o, vos peço, ó caríssimas, em vosso coração esta árvore fecunda e à medida que suas raízes se aprofundarão, será copiosa de folhas, flores e frutos. "[12]

Paciência e caridade no trabalho educativo é o terceiro convite que o Fundador dirige às Irmãs. A escola é um campo maravilhoso de apostolado, feito de instrução civil, mas também de formação humana e espiritual. O objetivo do empenho escolástico é a educação dos jovens para que se tornem bons cristãos e honestos cidadãos. A sociedade e a Igreja precisam da vossa obra para criar comunidades onde reina a fraternidade, o acolhimento dos outros, o respeito mútuo, compreensão e, acima de tudo o perdão. O carisma educativo do Beato Luís Caburlotto é todo fundamentado na caridade e na doçura: "Minhas filhas! Eu não vos falarei senão de doçura, porque com a doçura se mudam as feras em mansos cordeiros, e, ganhareis em muito o espírito deles com esta virtude "[13] Com a doçura se imita a generosidade misericordiosa de Jesus:". Ele, que, sempre generoso, vos tratará com delicada doçura. Oh! Beatas consolações se vocês saborearem a doçura de Jesus! Então, cada peso vos parecerá muito leve, e cada sacrifício, consolação. "[14] A bondade, a discrição e a humildade de São José, patrono do Instituto, possam ajudar as irmãs em sua tarefa de fidelidade ao carisma do Beato Fundador .

Mas o chamado à santidade, à caridade para com o próximo necessitado, ao empenho educativo se aplica a todos, não apenas para as Irmãs, mas também para os pais, para os sacerdotes, para os Educadores. Imitemos o Beato Luís Caburlotto em seu entusiasmo educativo alimentado pela oração e pela Eucaristia e manifestado em uma atitude contínua e diária de paciência, perdão, doçura, cordialidade e alegria.

Beato Luís Caburlotto, rogai por nós.

Texto integral da homilia do Cardeal Angelo Amato

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